Eusébio!
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Eusébio!


"E, de repente, o Rei deixou-nos...
Tinha 12 anos quando pela primeira vez ouvi falar dele. As informações que então nos chegavam de Lourenço Marques davam conta de um miúdo genial, que nascera dotado de invulgar talento para a arte do futebol e que, nos pelados moçambicanos, já deliciava plateias e cativava adeptos como poucos. Mesmo descontando os exageros que eram habituais acompanharem estas e outras notícias, ainda para mais "naquele" tempo em que o rigor deixava muito a desejar, pressentia-se - era mesmo esse o sentimento dominante - que algo de diferente e de muito importante estava aí para "rebentar".
Os grandes clubes portugueses, Sporting e Benfica sobretudo, atentos ao desabrochar das pérolas africanas, já há muito se digladiavam, tentando cada qual garantir os serviços do promissor jogador e recordo-me bem do que a Imprensa teorizava sobre o assunto, em crónicas, opiniões ou simples "pontos de vista", enchendo páginas e páginas de jornais e revistas, tendo por mote o "caso Eusébio". Aparentemente, o Sporting estaria em vantagem, dada a militância de Eusébio no Sporting de Lourenço Marques, filial dos "leões" de Lisboa.
Seria, contudo, o Benfica a conseguir o passe do jogador, numa jogada de antecipação do seu representante na capital de Moçambique. Mas nem assim o caso esmoreceu. O Sporting retaliou e houve que aguardar ainda cinco meses para que os tribunais, depois de muitas demandas, dessem razão aos encarnados e Eusébio - entretanto "resguardado" em Lagos, na casa de férias do dirigente do Benfica, Domingos Claudino - pudesse finalmente aparecer e treinar na Luz.
Das "reservas"do clube, onde se estreou frente ao Atlético, à titularidade na equipa - quer na Taça (V.Setúbal), quer no campeonato (Belenenses) - foi uma questão de dias, sempre com a particularidade de marcar o seu golo. No defeso, teve ocasião de brilhar no Torneio Internacional de Paris (três golos ao Santos), terminando o ano como indiscutível (e marcador...) na selecção nacional. Em cinco meses, a estrela moçambicana confirmara o seu estatuto.
Posso dizer que sempre segui com muita atenção a carreira de Eusébio, talvez espicaçado pela frase da velha raposa Guttmann ("é ouro, é ouro!"), quando se apercebeu das qualidades do novo recruta. Mas, na 1ª época, a de 61-62, não tive grandes ocasiões para o ver actuar. O "pantera negra", depois de um início fulgurante, saiu de cena por uns meses para ser operado ao joelho esquerdo, naquele que foi o início do seu calvário.
O flagelo das lesões obrigá-lo-ia a sete operações, seis das quais ao seu muito martirizado joelho esquerdo, e a constantes "tratamentos de choque" que terão posto em causa a sua correcta reabilitação. Mas nem por isso a sua trajectória se desviou do caminho triunfal. O título de campeão europeu, frente ao Real Madrid, em 62, abriu-lhe as portas da fama e a grande actuação no Campeonato do Mundo em Inglaterra projectou-o em definitivo na alta roda mundial.
O seu extraordinário currículo não cabe aqui nesta crónica. Dir-se-á que foi "apenas" campeão nacional por 11 vezes, ganhou cinco Taças de Portugal, foi campeão europeu e foi o melhor jogador e marcador da selecção na campanha do Mundial-66, em Inglaterra, onde Portugal alcançou o 3.º lugar. Os quatro golos marcados à Coreia do Norte (5-3) são, ainda hoje, referência obrigatória, mas será bom não esquecer os golos decisivos e espectaculares que apontou em Ancara e Bratislava, na fase de qualificação, que tornaram possível a grande saga dos Magriços.
Como marcador, foi ainda o maior de sempre do Benfica e o melhor da equipa e da selecção nacional, considerando a média resultante de jogos e golos subscritos. No plano internacional, foi por duas vezes o melhor marcador europeu e eleito uma vez o melhor futebolista do velho continente. Já no final da carreira, representou o Beira-Mar e o U. Tomar, além de ter jogado algumas épocas no campeonato dos Estados Unidos.
Restará dizer que, como ser humano, Eusébio foi também um exemplo. Um grande exemplo. De uma simplicidade e simpatia comoventes, dele se recordam os gestos de "fair-play", dentro e fora dos relvados, as suas atitudes de companheirismo e solidariedade, a sua constante disponibilidade e compreensão. O maior símbolo do futebol português e do desporto em geral, um campeão que galvanizou e arrastou multidões, era também um homem simples e bom. Que descanse em paz!"

Rui Tovar, in Sapo Desporto



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